quarta-feira, 15 de outubro de 2014


Não há quem não tenha sua novela preferida. E quem, ignorando deslizes de roteiro ou escalações, dentre outros, não defenda sua trama favorita como se ela fosse um grande clássico. Sabemos, entretanto, que grandes clássicos são raros. São fenômenos que acontecem de tempos em tempos, nos quais texto, elenco e direção confluem para um resultado primoroso no vídeo.

São fenômenos que se tornam marcantes na história da teledramaturgia brasileira. Que representam uma mudança de comportamento na sociedade, uma nova estética para a TV e uma lembrança eterna para o grande público. Neste nicho, podemos incluir Vale Tudo, Roque Santeiro, Que Rei Sou Eu?, Rainha da Sucata, Água Viva e Dancin’ Days, todas exibidas na faixa mais nobre do Canal Viva. O Dono do Mundo, próxima atração do horário, não se encaixa nesse perfil (embora não deixe de ser uma boa novela).

Foi pensando em títulos para a faixa da meia-noite que eu e meu grande amigo Fábio Costa chegamos a Pecado Capital. A novela, cujo remake quase retornou ao Viva em duas ocasiões, é um clássico da teledramaturgia brasileira. E ninguém melhor que nosso sócio (já que este é seu segundo texto aqui) para comentar sobre. Obrigado pela colaboração de sempre, amigo!


Pecado Capital: duas versões de um clássico da teledramaturgia
por Fábio Costa

Em 1975, após ter consolidado as produções coloridas para o horário das 22h (e o próprio horário) e colorizado a então recém-criada faixa das 18h a partir da terceira produção do núcleo, Senhora, baseada em José de Alencar, a Rede Globo prosseguia com a colorização de seus horários de dramaturgia com as gravações da novela que substituiria Escalada, de Lauro César Muniz, na faixa principal, a das 20h.

Dias Gomes, após sucessivos êxitos às 22h (Bandeira 2, O Bem-amado, O Espigão), foi incumbido da tarefa de trazer o clima do horário para as 20h, e só aceitou sob a condição principal de não modificar seu jeito de escrever nem abrir mão de seus temas políticos. Sua mulher, Janete Clair, também já consagrada na ocasião após diversos sucessos às 20h (Véu de Noiva, Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Fogo Sobre Terra), foi “rebaixada” para a faixa das 19h, na qual estreou Bravo! em 16 de junho daquele ano. Para 27 de agosto, programava-se a estreia às 20h de A Incrível História de Roque Santeiro e Sua Fogosa Viúva, a que Era Sem Nunca Ter Sido, chamada simplesmente de Roque Santeiro para facilitar.

Dias Gomes teve sua novela, dirigida por Daniel Filho, proibida de ir ao ar no dia da estreia, com cerca de 50 capítulos escritos, 30 gravados e 20 prontos para exibição, após o recebimento do comunicado da Censura dizendo que Roque Santeiro continha “atentado à moral e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja” e a notícia ser dada ao público, que passou a acompanhar naquele horário uma reprise providencial de Selva de Pedra, tapa-buraco para o período no qual se pensaria em como resolver o problema.

Janete Clair, que não havia engolido a mudança para as 19h, disse que de sua casa o horário das 20h não sairia, e se propôs a criar a toque de caixa uma nova novela para ser colocada no ar o quanto antes, aproveitando toda a equipe contratada para Roque Santeiro. Assim, enquanto o repeteco de Selva de Pedra fazia tanto sucesso quanto a exibição original de três anos antes (1972), ela se pôs a criar, acostumada aos curtos prazos e com a disposição extra de calar os que a tachavam de fantasiosa, alienante e melodramática demais.


Em 24 de novembro de 1975 foi ao ar o primeiro capítulo daquela que seria considerada a melhor novela da autora por muitos: Pecado Capital. O inspirado título batizava a história de dois homens, bastante diferentes entre si, mas que tinham em comum a obstinação pelo que desejam conquistar e a disposição de transpor todos os obstáculos que surjam nessa conquista. Um é José Carlos Moreno, o Carlão (Francisco Cuoco), chofer de praça que mora no Méier, zona norte do Rio de Janeiro, e cuida do pai doente, Raimundo (Gilberto Martinho). Está noivo de Lucinha (Betty Faria), operária das Confecções Centauro, bela morena de quem morre de ciúme.

Já no primeiro capítulo um acontecimento decisivo é mostrado ao público: Miguel (Zanoni Ferrite) e a amante Eunice (Rosamaria Murtinho) embarcam no Fusca de Carlão após Miguel assaltar uma agência bancária, e na pressa de escapar da perseguição policial Eunice acaba por esquecer a mala com o dinheiro do assalto no carro. Carlão só se dá conta do ocorrido ao chegar em casa, e fica embasbacado ao contar o dinheiro: oitocentos mil cruzeiros, grande quantia para a época – e mesmo hoje, se considerarmos a atual moeda, o real, embora não se possa equiparar Cr$ 800 mil de 1975 a R$ 800 mil em 2014.

Enquanto pensa no que fazer com aquele dinheiro, dividido entre a possibilidade de ser envolvido no crime ao entregar a mala para a polícia e a chance de ascender utilizando um dinheiro que, se é roubado, não foi roubado por ele, Carlão começa a se desentender com Lucinha devido a ela iniciar seus trabalhos de modelo fotográfico junto à agência publicitária Cítera, cujo proprietário Nélio Porto Rico (Dênis Carvalho) a conhecera ao filmar algumas tomadas na fábrica para um novo filme comercial das Organizações Centauro.

Aqui encontramos o outro protagonista masculino da história: Salviano Lisboa (Lima Duarte), dono da Centauro, que no início da novela chega aos 50 anos. Um viúvo que vive para o trabalho, no que se ocupa para driblar e esquecer o abandono em que se encontra, embora seja pai de seis filhos. Vicente (Luiz Armando Queiroz), Vitória (Theresa Amayo), Vinícius (Marco Nanini), Virgílio (Lauro Góes), Vilminha (Débora Duarte) e Valter (João Carlos Barroso) estão todos ocupados com suas próprias vidas, que em geral não incluem o pai. Os grandes amigos de Salviano são seu homem de confiança, Valdir (Emiliano Queiroz), apaixonado por Vilminha, e Bá (Elza Gomes), que o ajudara a criar os filhos após a viuvez.

Salviano se encanta com Lucinha à primeira vista, logo que a vê nos filmes comerciais produzidos por Nélio. Os dois se aproximam e se apaixonam, ao mesmo tempo em que Lucinha, cansada do machismo e dos preconceitos de Carlão, se desencanta do noivado, envolvida pela nova vida como modelo e, futuramente, quem sabe até atriz. Preterido, Carlão passa a fazer uso do dinheiro por diversos motivos, desde custear uma operação cardíaca para o pai até empreender negócio atrás de negócio para impressionar Lucinha, adiando sempre uma vez mais a devolução dos oitocentos mil cruzeiros às autoridades e temendo ser descoberto e preso. Ao passo que Lucinha e Salviano precisam enfrentar a resistência dos filhos dele, contrários à união, já que acreditam ser ela uma mera golpista que se aproveita da solidão e da ingenuidade do pai.

Eunice, a mulher de classe média entediada no casamento que se viu envolvida num assalto a banco graças ao amante, acaba presa ao ser denunciada pelo marido Ricardo (Moacyr Deriquém), quando este descobre tudo, e Carlão se aproxima dela cheio de remorso. Ela enfim reconhece nele o taxista em cujo carro esquecera a maleta com o dinheiro, mas os dois resolvem unir suas mágoas amorosas e se casam, embora Carlão não tenha deixado de amar Lucinha, que ao longo da trama vai se afastando cada vez mais não apenas da operária rude e sem modos que era, mas em especial da “Amélia” que o chofer de praça gostaria que ela fosse enquanto esposa.

O realismo implementado por Janete Clair em sua dramaturgia, que se antes já se fazia presente era aqui exposto de novo modo, mais aberto, menos amarrado, mais “real” com o perdão da redundância, no retrato das relações entre ricos e pobres fugindo ao simples maniqueísmo, e o subúrbio mostrado na televisão de forma pouco ou nada estereotipada, aliado à trama envolvente e bem conduzida, além da direção de Daniel Filho e Jardel Mello, fizeram de Pecado Capital um grande sucesso. As cores chegavam à novela das 20h da Globo junto com os injustos boatos de que, tamanho o realismo da história, na verdade era Dias Gomes quem a escrevia, e não a romântica Janete.


O final da novela, que mostra Carlão morrendo depois de uma série de agruras vividas em razão de ter ficado com o dinheiro do assalto, e a notícia dada no jornal na mesma edição que noticia o casamento de Salviano e Lucinha, se tornou emblemático. Não apenas porque matava um protagonista, mas em especial por ter fechado com chave de ouro a proposta de uma tragédia urbana nacional, pretendida e alcançada por Janete e Daniel. O ótimo resultado pode ser conferido no lançamento da novela pela Globo Marcas, num compacto de dez DVDs. Mas, como compacto não é íntegra, a faixa da meia-noite do Viva pode (e, por que não dizer, até deve, já que a existência de uma versão em DVD tem sido quase um requisito, por coincidência ou não, para as reapresentações) muito bem resgatar este que é um dos textos que compõem o cânone da nossa teledramaturgia, por assim dizer.


Clássico absoluto, marcante por diversos motivos, no final dos anos 90 a novela foi lembrada para marcar os 15 anos da morte de Janete e prosseguir com uma tendência que havia rendido alguns resultados positivos – a regravação de sucessos do passado, como Mulheres de Areia, em 1993, A Viagem, em 1994, e Anjo Mau, em 1997/98. Em 5 de outubro de 1998, às 18h, estreou o remake de Pecado Capital, em adaptação de Glória Perez – considerada “discípula” da autora – e dirigido por Wolf Maya e Maurício Farias.

O clássico tema de abertura, homônimo da novela, composto e interpretado por Paulinho da Viola, ganhou aqui uma releitura pelo grupo Só Pra Contrariar – a qual, para meu gosto e o de muitos espectadores, poderia ter dado lugar à gravação original mesmo. Francisco Cuoco, o Carlão dos anos 70, voltava agora como Salviano, numa homenagem ao ator em razão de sua relação pessoal de amizade com Janete Clair e de poder fazer parte novamente de um de seus trabalhos mais marcantes, nesta nova versão. Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz, que acabavam de viver o casal Nando e Milena em Por Amor, queridinhos do público graças à boa química em cena e pelos beijos tórridos que trocavam ao som de Vanessa Rangel e sua “Palpite”, foram escalados para viver Carlão e Lucinha. Betty Faria e Lima Duarte apareceram em participações afetivo-especiais. Para viver Eunice foi escalada a talentosa Cássia Kiss, e Paloma Duarte vivia a personagem que fora de sua mãe, Débora Duarte: Vilminha, aqui transformada em clubber, modismo juvenil da época.

Na atualização, os oitocentos mil cruzeiros se tornaram dois milhões de reais, o bairro suburbano mudou de Méier para Marechal Hermes e foram criados e/ou modificados diversos conflitos da história em relação à versão original. Talvez o maior desacerto tenha sido o núcleo do bar do Seu Clóvis (Pedro Paulo Rangel), cujo filho Tenorinho (Eri Johnson) se fazia passar por herdeiro rico nas praias da zona sul, se bacaneando entre uma partida e outra de futevôlei. A esposa Otília (Íris Bruzzi) traía Clóvis descaradamente com o bicheiro Boca (Oswaldo Loureiro), figura temida em Marechal, enquanto a afilhada Ritinha (Camila Pitanga) disputava com Clarelis (Leandra Leal), irmã de Lucinha (no original, Emilene (Elizângela)), o posto de moça mais desejada/desejável do bairro. Em que pesem os talentos reunidos, infelizmente foi um núcleo que não funcionou.

Assim como não funcionou também a escalação dos atores que interpretavam os filhos de Salviano, de papel importante na trama já que, além de muitos, compunham o empecilho maior à realização do romance do pai. Thiago Lacerda (Vicente), Thaís de Campos (Vitória), Marcos Winter (Virgílio), Marcelo Serrado (Vinícius), Paloma Duarte e Jiddu Pinheiro (Valter) são todos atores reconhecidos, ainda mais desde a exibição da novela, mas não formavam um todo emocionante e coeso quando reunidos. Faltou alguma coisa.

Mas o grande desacerto desta segunda versão de Pecado Capital foi mesmo no trio principal. Cada um dos protagonistas – Cuoco, Carolina e Moscovis – caiu como uma luva em seus respectivos papéis, mas o triângulo em si, mola-mestra da história, junto com o poder do dinheiro sobre as pessoas, não surtiu o efeito esperado. Isso, mais a rejeição de Carolina ao fato de ter que beijar Cuoco em cena, contracenar com ele (o que, convenhamos, ela deveria ter analisado ao aceitar a personagem, já que isso era mais do que sabido e previsível), compôs o cenário para um casal que não funcionava, logicamente, e teve que ser separado porque a falta de entendimento entre os intérpretes saltava aos olhos do espectador menos atento a detalhes.

Com isso, a trama romântica principal teve que ser alterada drasticamente, deixando de seguir no mínimo possível ao original de Janete Clair e destoando de outras modificações feitas, mais aceitáveis, no resto da novela. Salviano e Lucinha cedem às pressões dos muitos filhos dele e ao amor dela por Carlão, que ainda se faz presente. Para fazer par com Salviano, enquanto Carlão e Lucinha se veem às voltas com o vai-e-volta do romance e a presença de Eunice na vida dele – entrecho mantido –, foi criada uma nova personagem: Laura (Vera Fischer), irmã da falecida esposa do milionário. Bom, ao menos a morte de Carlão no final da história foi mantida – embora se tenha chegado perto de mantê-lo vivo e deixá-lo feliz com Lucinha no último capítulo. Provavelmente Glória Perez quis compensar o desacerto de Salviano e Lucinha.

A segunda versão da novela não pode ser considerada um fracasso de audiência, já que conquistou índices em torno do desejado para o horário na ocasião – 30 pontos em média – e teve mais capítulos que a original (185, contra 167). Mas não foi uma novela que repercutiu da forma como repercutem os sucessos assim considerados.


Ainda assim, considero que sim, vale a pena vê-la de novo (parafraseando o título da sessão de reprises global), na Globo ou no Viva (que já quis reprisá-la, duas vezes até agora, mas cedeu a manifestações contrárias de uma parcela do público). Um belo exemplo de erros e acertos possíveis ao se refazer tamanho clássico. A espinha dorsal de Janete Clair (que, embora modificada, ainda era irresistível), os trabalhos do elenco e o fato de ser uma produção ainda não reprisada (como tantas, mas que contraria o que o Viva tem seguido até aqui, que é reprisar apenas o que já se reprisou), além de servir como registro do ciclo dramatúrgico dos anos 90, justificariam. Afinal, como já tem se tornado um bordão meu ao escrever sobre o assunto, nem só de sucessos arrebatadores deve viver um canal como o Viva – e, assim como muitos espectadores se manifestaram contra, certamente há outros tantos que são a favor de uma reprise da novela. Que venha.




O usuário Gorpo Silva disponibilizou no YouTube o compacto de Pecado Capital, exibido na faixa Festival 15 Anos, em 1980. Vale a pena conferir!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014


O Canal Viva já nos brindou com produções próprias. A princípio, o excelente Reviva; hoje, infelizmente, fora da grade. Depois, com Viva o Sucesso, os episódios inéditos do Sai de Baixo e a aclamada Damas da TV. Neste mês, tivemos a estreia de Meu Amigo Encosto, primeira experiência em dramaturgia. Em novembro, o Globo de Ouro Palco Viva e, em breve, o Rebobina. Está nítido que o canal investirá, cada vez mais, em produções próprias.

Pensando em dar uma “mãozinha” ao Viva, o blog estreia a coluna Estúdio Viva. Aqui, vamos sugerir novos programas, que gostaríamos de ver em breve na tela do canal. Fica o convite para que os leitores também enviem seus projetos para que possamos publicar aqui. Vamos colaborar para que o Viva tenha cada vez mais a cara do seu telespectador.

Para sempre Vídeo Show!
Memória do programa deveria ser reverenciada


Não dá pra imaginar a grade vespertina da TV Globo sem o Vídeo Show. Embora seus bons números tenham sido prejudicados com a última mudança de formato, quando Zeca Camargo assumiu a apresentação, o programa ainda serve como importante alavanca para toda a tarde e é sempre garantia de bom entretenimento. Seu rico acervo contém matérias dos mais diferentes produtos já exibidos pela Globo, tornando-se assim peça fundamental na preservação da memória da TV brasileira. E uma atração que reverencia a história da televisão de tal maneira é digna de homenagens.

E qual seria o melhor lugar para homenagear o Vídeo Show? O Viva, sem dúvida! O canal que também cultua a memória televisa já exibe a reapresentação do programa, de segunda a sexta, às 17h15. Mas propomos aqui uma nova atração, da qual o arquivo do Vídeo Show é o carro-chefe.

O Vídeo “Viva” Show se destina a reprisar matérias do programa, relacionadas aos produtos em exibição no Viva. Um exemplo: agora, com a exibição de Dancin’ Days, A Viagem e História de Amor, o programa reprisaria reportagens da época da exibição original dessas novelas, com os bastidores de gravação, detalhes da produção e entrevistas com o elenco. O mesmo se aplica a outras atrações do Viva. Para completar, poderíamos rever quadros como “Antes da fama” e “Por onde anda”; sucessos como o “Falha nossa”; e as entrevistas (em externas) de Cissa Guimarães no “Gentem como a gente” e de Miguel Falabella (no estúdio), em “Tricotando com Falabella”. Esquema semelhante ao visto em O Show da Vida: É Fantástico, que resgata o arquivo do dominical.

No entanto, o Vídeo Viva Show demanda maiores cuidados. Costurando as matérias a serem exibidas no programa, poderíamos contar com o auxílio de um apresentador ou apresentadora. Por que não a eterna garota que “quebra o coco, mas não arrebenta a sapucaia”, Cissa Guimarães? A voz oficial do Vídeo Show é tão marcante na trajetória do programa quanto Miguel Falabella, até hoje, o melhor dentre os apresentadores que passaram por ali. Seria o máximo ver Cissa em um cenário estilizado, inspirado no do Vídeo Show dos anos 80, entre monitores de TV e cabos aparentes. Ou mesmo entre as luzes de neon que davam o contorno do programa na década seguinte.

O Viva poderia aproveitar a atração também para interagir com o público nas redes sociais. Por que não se aproveitar do “Selfie service”, um dos quadros da atual temporada, em que os astros da Globo pedem cenas de novelas e afins? O mesmo formato poderia ser adotado por esta nova atração, usando, no entanto, depoimentos de telespectadores enviados através da internet. O programa poderia interagir também com as seções do site do canal. Seria muito bacana ver Nilson Xavier comentando determinada cena de uma das novelas exibidas pelo Viva, cujos bastidores são mostrados em VT, numa das matérias reprisadas; ou Frederico Pellachin relatando curiosidades das trilhas sonoras, antes de uma reprise do quadro “Em estúdio”, que trazia cantores gravando suas composições (normalmente, as que estavam na trilha de uma novela). Ainda, a Locadora da Diná, com dicas de filmes que serviriam como a “Agenda cultural”, outro quadro que, por muito tempo, ocupou o Vídeo Show.

E qual seria o melhor horário para esta nova produção do Viva? Quem sabe nas quartas, 20h30, ou aos sábados, entre o Globo de Ouro e a novela da meia-noite? Seriam 30 minutos de puro saudosismo!

Fato é que o Vídeo Show deve ser revisitado. E para esta visitinha, não há companheiro melhor do que o Viva! Estamos na torcida!

O quê?
Vídeo “Viva” Show

Como?
Programa que traz matérias de arquivo do Vídeo Show, da TV Globo, relacionadas às produções exibidas pelo Canal Viva.


Com quem?
Sugerimos Cissa Guimarães para a apresentação.

Onde?
Em um estúdio cuja cenografia remeta aos cenários da atração nos anos 80 ou 90.

Quando?
Quartas, após a Escolinha do Professor Raimundo, ou sábados, após o Globo de Ouro, em episódios de 30 minutos.



O usuário DJ Jalasca publicou, em um único vídeo, diversas frases selecionadas por Miguel Falabella para o encerramento de diferentes edições do programa. Incrível!



Sou um dos (poucos, acredito) que gostaria de assistir a segunda versão de Pecado Capital. A novela não foi um sucesso, muito pelo contrário, mas teve os seus méritos: o bom desempenho de Eduardo Moscovis como Carlão; ver Mara Manzan em uma personagem diferente das que costumava interpretar (Alzira); acompanhar o amadurecimento de Camila Pitanga (Ritinha) e Leandra Leal (Clarelis). Todas as novelas, independentemente de seus números, têm atrativos, nem que seja para determinada parcela do público. Sou um entusiasta destas tramas, que muitas vezes despertam mais curiosidades do que novelas “arrasa-quarteirões”. Quando uma novela se sai bem, só elogios; quando vai mal, surgem inúmeras explicações e só quem realmente acompanha vai entender o fracasso ou questionar o mesmo, mediante seu interesse pelo que assiste.

Para essas novelas esquecidas, e muitas vezes rechaçadas, proponho o Viva Cult. Uma faixa dedicada a tramas que não foram bem em sua primeira exibição, mas que conseguiram angariar fãs e merecem uma “nova chance”. Uma sessão que viria a complementar o Viva Retrô (já proposto aqui) e preencher a grade matinal; hoje, um dos horários mais desinteressantes do canal.

E para dar início aos textos desta coluna, que visa resgatar títulos para o Viva Cult, recorri a um texto do meu querido amigo Fernando Russowsky. Texto este que, de tão bem escrito, me despertou a atenção para Araponga, esquecida novela vinculada em 1990, no alternativo horário das 21h30. Deixo vocês com a ótima análise do Fernando, na estreia desta coluna que, espero eu, logo se torne uma sessão do canal.


A ingrata missão do agente secreto
por Fernando Russowsky

Faço parte da meia dúzia de quatro ou cinco que, com a estreia de Araponga, passou a assistir Pantanal apenas aos sábados. Sem desmerecer o primoroso trabalho apresentado pela Rede Manchete, isso não me trouxe nenhum prejuízo para o entendimento da trama...

Concebida originalmente como a novela das oito que sucederia Rainha da Sucata, teve como títulos provisórios Os Clones e Ponto Futuro e, como um dos temas principais, a engenharia genética. Como este era o assunto principal da novela das seis da época, Barriga de Aluguel, a Globo achou melhor não levar a novela ao ar e chamou Cassiano Gabus Mendes, que escreveu Meu Bem Meu Mal. Me lembro que o senador Petrônio Paranhos (Paulo Gracindo, que em três dos quatro capítulos nos quais apareceu foi como um morto animado por outras pessoas para parecer vivo - uma referência ao seu trabalho como Quincas Berro D'Água?) deixou material para fazer um filho com Arlete (Carla Marins) por meio de inseminação artificial. Será que na sinopse original o senador pretendia produzir um clone de si próprio, antecipando em onze anos a abordagem da clonagem humana na telenovela brasileira? Por fim, Araponga estreou em 15 de outubro de 1990 “em regime especial”, como chegou a ser divulgado em algumas notas na época, às 21h30, com modificações no roteiro, dando menos ênfase à questão genética.

Acredito que esta é, senão a mais, uma das mais injustiçadas de todas as novelas. A televisão brasileira passava por um momento sem precedentes: consolidada a liderança global, nos anos 70, foi a primeira vez que uma novela de outra emissora era, com todos os méritos, campeã de audiência e, principalmente, de repercussão. Araponga estreou com a “missão impossível” de trazer de volta à Globo o público do horário após a novela das oito. Tinha atributos para isso, mas, definitivamente, o momento era de Pantanal, cujas novidades quanto ao ritmo e à narrativa eu creio que a imprensa e o público ainda estavam assimilando (algo como uma criança com brinquedo novo). Por isso, acabaram não prestando a devida atenção às inesquecíveis atuações de Tarcísio Meira (Aristênio Catanduva - Araponga), Zilka Salaberry (Dona Marocas), Taumaturgo Ferreira (Tuca Maia), o que eu considero o trabalho mais divertido de Flávio Galvão (João Paulo - só neste trabalho eu consegui me livrar da imagem que eu tinha dele como o diabo em Corpo a Corpo) e a minha então musa inspiradora, Carla Marins (Arlete), entre vários outros injustamente omitidos aqui. Araponga foi a primeira novela de Luiza Brunet (Dalila - aparecia uma vez a cada vinte capítulos) e Dira Paes (Nininha). Também resgatou nomes como Monique Lafond (Elizabeth), Elizabeth Gasper (Marieta) e Darlene Glória (Dayse).

O texto ágil, inteligente e crítico acabou sendo qualificado de “bobo”, “ridículo” e outros termos ainda mais desabonadores. Como não conseguiu reverter o quadro favorável à concorrente, a Globo praticamente desistiu de Araponga. Sem levar em consideração seu público pequeno, mas fiel, por várias vezes deixou de apresentar o capítulo para exibir filmes, especiais e, mais raramente, futebol. Me lembro que nas semanas entre o natal e o ano-novo, só houve exibição de quarta à sexta. Em janeiro, a duração dos capítulos foi reduzida de 1 hora para 45 minutos, com comerciais. E o término da novela já estava decretado para 29 de março de 1991, sexta-feira. Na semana seguinte estrearia a nova linha de shows da emissora.

Eu gostava muito do humor nonsense da novela, com tiradas dignas de desenho animado, como quando Tuca Maia fala com Dalila ao telefone (na época não havia celular) e diz: “Tô indo praí”. Dalila desliga. Toca a campainha da casa dela, ela atende e é Tuca Maia. Contando talvez não tenha a mesma graça... Ou a cena em que Araponga e Mão-de-Gato (Yvan Mesquita em participação especial) explodiam um cofre e acabavam destruindo o cenário da gravação que acontecia no estúdio ao lado. Teve também a cena em que Tuca Maia (de novo) entra num táxi e manda o motorista seguir um carro à frente. O motorista vibra: “Legal, igual filme americano!”. Terminada a corrida, Tuca paga e pede o troco, o motorista reclama que em filme americano o passageiro não pede o troco. Tuca responde: “É, mas isso aqui é novela!” (pra quem tinha dúvidas em relação ao que Araponga era realmente...).

Uma observação curiosa é que, embora sua audiência não tenha sido expressiva, teve considerável repercussão. Tanto que profissionais que trabalham com grampos telefônicos receberam a alcunha e ainda hoje são identificados como “arapongas”. Muitas pessoas podem não lembrar da novela, mas lembram da “urinolina”, o combustível alternativo sobre o qual foram feitas milhares de pesquisas (principalmente para resolver seu maior inconveniente, o mau cheiro) para no final descobrirem que era inviável. Seria uma crítica ao Proálcool, que à época enfrentava sua pior crise? Ou uma profecia, como aponta esta matéria? O regime militar também não foi poupado, principalmente as organizações secretas (como a que Araponga fazia parte) e a tortura (o detetive se trancava no quarto, se pendurava num pau-de-arara e se dava choques).

Tenho pra mim que Araponga foi uma obra genial, a novela certa no momento errado. Merecia ter sido tratada com mais consideração.


O usuário Higor Vieira publicou esta chamada de um dos capítulos de Araponga, já na reta final da novela. Confira!

Novela de comadre. A expressão, comumente usada para definir História de Amor, se encaixa bem nas outras tramas já exibidas pelo canal à tarde. Destinado, a princípio, a novelas de tom mais cômico (Quatro por Quatro, Vamp e Top Model), o horário passou por uma modificação com Felicidade, que arrebatou o público, e abriu caminho para Anjo Mau e o atual cartaz das 15h30. Tropicaliente, que vai substituir a novela do Maneco em novembro, também envereda pelo caminho “comadre”: uma trama romântica, com personagens de fácil assimilação, comumente exibida às 18h ou 19h.

Outras novelas se aproximam desta definição. E é sobre elas que esta coluna do blog pretende falar. Assim como fizemos com o horário das 14h30, vamos sugerir aqui obras que poderiam muito bem substituir Tropicaliente em 2015, pois, certamente, iriam de encontro às “comadres noveleiras” do horário.


Sonhar não custa nada!
Novela das 18h pode trazer gosto de infância ao telespectador do Viva

O gosto pessoal que cultivamos na infância não pode servir como parâmetro para nossas opiniões quando adultos. A memória afetiva, por vezes, nos trai. Um bom exemplo disto é a aversão que tomei por Vamp, quando esta fora reprisada pelo Viva. Aos olhos de hoje, a novela não continha nenhum atrativo e passou longe de me entusiasmar como fez em sua primeira reapresentação, nas tardes da Globo. Talvez sentimento semelhante me invada caso, um dia, Sonho Meu, de Marcílio Moraes, volte ao ar.  Ou não! Adorei a novela quando pequeno e lembro que, muitos adultos com quem convivia na época, e convivo até hoje, também curtiam.

Sonho Meu unia duas sinopses de Teixeira Filho, A Pequena Órfã e Ídolo de Pano, buscando manter o sucesso dos remakes na faixa das 18h, que vinha do excelente desempenho de Mulheres de Areia. Acusada de ser extremamente melodramática, Sonho Meu reunia todos os clichês do gênero, mas o fez de modo tão sofisticado (com o requinte do texto e o aparo da direção) que acabou por impingir ao público a veracidade necessária para que o telespectador embarcasse na estória. A ambientação em Curitiba contribuiu para conferir ainda mais charme à novela.

A trama era encabeçada por Cláudia (Patrícia França), mocinha que, para fugir da violência do marido, Geraldo (José de Abreu), acabava abandonando a filha, Carolina (Carolina Pavanelli). Vivendo no Rio de Janeiro, Cláudia é descoberta pelo marido e decide fugir para Curitiba, onde se emprega na fábrica de brinquedos Ludens, de propriedade da família Candeias de Sá, conduzida por Paula (Beatriz Segall), avó do playboy Lucas (Leonardo Vieira) e do médico Jorge (Fábio Assunção).

Cláudia passou por toda a sorte de sacrifícios, em nome da saúde de sua filha, portadora de leucemia. A princípio, seduziu Jorge, diante da possibilidade de utilizar o dinheiro do rapaz para bancar o tratamento de Carolina. Mas o coração da operária bate forte mesmo é por Lucas, que está noivo da publicitária Lúcia (Isabela Garcia). Para ficar ao lado da amada, o jovem se opõe à avó e desiste de sua herança, o que se torna um empecilho para as necessidades emergenciais de Cláudia. Ela chega a aceitar suborno de Paula para se afastar de Lucas (200 mil dólares necessários para submeter Carolina a uma cirurgia no exterior); a matriarca, no entanto, recua ao ver que o neto está se deteriorando. Cláudia e Lucas, então, se casam; ao mesmo tempo, ela entra em acordo com Geraldo, para não perder em definitivo a guarda de sua pequena. Os dois passam a morar juntos na humilde rua das Flores, que estabelece um imenso contraste com a suntuosa mansão Candeias de Sá. Cláudia se torna gata borralheira de dia e Cinderela à noite. O único que compartilha de sua vida dupla é Tio Zé (Elias Gleiser), polonês que fabrica brinquedos artesanais e se afeiçoa a Carolina, a quem passa a tratar por Lalesca.

Desde que fora abandonada pela mãe, Carolina passou a viver com sua tia Elisa (Nívea Maria, em ótima atuação), irmã de seu pai. Impaciente, a megera abandona sua sobrinha em um orfanato, dirigido pelo não menos asqueroso Fiapo (Carlos Alberto), que se torna amante de Elisa. Ao fugir da instituição, Carolina vai parar na casa de tio Zé, que a aproxima das outras crianças da rua e lhe mostra um mundo de imaginação e alegrias. Ainda assim, a menina passa por diversos infortúnios: chega a ser explorada por dois bandidos e sequestrada por Jorge. Quando está prestes a voltar para os braços da mãe, é pressionada por Elisa a dizer, no Juizado de Menores, que deseja continuar no orfanato (caso contrário, a tia má irá levar o seu amigo Trigo (Fabiano Miranda) para um reformatório). Dramas infantis costumam pontuar bem na faixa da tarde do Canal Viva. Quem não se lembra de Bia (Tatiane Goulart), a filha da Helena de Maitê Proença em Felicidade, uma das recordistas no horário?

Os vilões Elisa e Fiapo também atazanavam a vida de Cláudia. Foram os primeiros a descobrir sua bigamia e só não foram além na chantagem que faziam contra a moça porque tiveram seus intentos barrados por Giácomo (Eri Johnson), mordomo da mansão que escondia ser filho bastardo de Bartolomeu, esposo de Paula. Aquele que mais teria motivos para se opor a Cláudia, quando sua vida dupla veio à tona, era Lucas. E foi justamente o herói quem a apoiou, bancando o tratamento de Lalesca, embora evitasse manter relações com Cláudia, afora o seu casamento de fachada, importante para que ele conseguisse a presidência da empresa da família.

Cláudia fora extremamente hostilizada (chegou a ser apedrejada pelos vizinhos da rua das Flores), até que se descobriu grávida de Lucas. Paula então a acolheu, bem como à Carolina, que com seu jeito doce e sua amizade com o cachorro Tofe, acabaram por humanizar a “dama de ferro”. Paula também se sensibilizara com Cláudia, que contraiu infecção renal, e por pouco, não deu adeus à vida. A irmã de Paula, Fabíola, também sofreu deste mal quando engravidou do polonês Roman Marzursky, de quem se separou para não desagradar à família. O polonês em questão vinha a ser o tio Zé, que, por ter sido rechaçado por Paula e seus pais, a desprezava profundamente.

Um dos grandes responsáveis pelas dificuldades pela qual Cláudia passou durante a gravidez foi Jorge. Obcecado pela moça, e pelo posto do irmão na empresa, o médico aprontou poucas e boas. Logo de cara, descobriu que era filho de Mariana (Débora Duarte, outro destaque), e fora dado para Paula, para que esta substituísse o verdadeiro Jorge, morto em um acidente aéreo na França, ao lado dos pais. Estranhando a proximidade de Mariana, a quem empregou como enfermeira em sua clínica, Jorge ordenou que o advogado Varela (Carlos Kroeber) a investigasse. Ao descobrir toda a verdade, o velho passou a chantagear Jorge, que ordenou que a mãe o matasse, simulando um ataque cardíaco. Guerra (Walmor Chagas), diretor da clínica em que Jorge atuava, acabou responsabilizado pela morte, acusado de erro médico, e, ao tomar conhecimento da situação, fez com que Jorge mandasse a própria mãe para a cadeia.

Cada vez mais fora de si, Jorge dopa a avó para que ela acredite que está com a saúde frágil; entra em negociatas escusas com Willian (Jayme Periard), diretor da fábrica, para desviar dinheiro para o exterior; torna-se namorado de Lúcia e joga charme para Aída (Cláudia Scher), empregada da mansão que conhece todos os seus segredos. Nos últimos capítulos, Jorge é misteriosamente assassinado. Me lembro da cena com clareza e do making-of, exibido no Vídeo Show, que mostrava Fábio Assunção colocando as bolsas de sangue por baixo de sua camisa, para simular os três tiros que levara. Lucas chegou a ser acusado pela morte do irmão, mas logo foi solto, já que as suspeitas recaíam sobre Willian. Ao final, a surpresa: Guerra assume a autoria do crime, para impedir que Lúcia, sua filha e verdadeira assassina, vá presa.

Sonho Meu apresentara outras cenas importantes. Dentre elas, a do belíssimo natal em Curitiba, com a apresentação de um coral que levava Lalesca, tio Zé e o público às lágrimas. A novela contou também com boas tramas paralelas: Guerra era casado com a tresloucada Magnólia (Yoná Magalhães), que implicava com o marido por ele pegar o seu chinelo e deixa-la descalça, no frio de Curitiba. A doidivanas se envolvia com Ortega (Alexandre Lipiani), rapaz mais jovem que ela, acometido pelo complexo de Édipo. Já Fontana (Flávio Galvão) era o marido fiel que sofria com o ciúme infundado da esposa, Gilda (Françoise Forton). A perua incentivou o romance do filho, Santiago (Ângelo Paes Leme, estreando antes do “apresentando” em História de Amor), com a jovem Marília (Karina Mello), sem notar que a moça, na verdade, estava interessada em Fontana; a essa altura, já envolvido com Márcia (Cristina Mullins), secretária particular de Paula.

Outro destaque de Sonho Meu é sua trilha sonora. A nacional não me agrada. Mas a internacional veio recheada de hits dançantes daquela primeira metade dos anos 90. “What is love” (Haddaway), “Mr. Vain” (Culture Beat), “Show me love” (Robin S.) e “More and more” (Captain Hollywood Project) eram alguns dos temas que se misturavam à canções românticas como “Wild world” (Mr. Big) e a belíssima “For whom the bell tolls” (Bee Gees), que embalava o casal Cláudia e Lucas. Ganhei uma fita K7 com essa trilha de minha mãe, como lembrança de uma viagem à Aparecida do Norte. Com o tempo, acabei me desfazendo da relíquia.


Dentre tantos temas, tramas e personagens, Sonho Meu transcorreu seu caminho de sucesso pelo horário das seis. Infelizmente, nunca mais tivemos uma oportunidade de rever a novela que, certamente, seria muito bem-vinda no Viva. Nós a aguardamos ansiosamente!




Relembre, neste vídeo da usuária RannahRennatha, o primeiro capítulo de Sonho Meu, na versão exibida pela SIC, parceira da Globo em Portugal.

Não sai de mim não, encosto!
Série do Viva traz sacadas inteligentes e competência do elenco principal

Uma família endividada passa a dividir o mesmo teto. A partir desta story-line, podemos presumir muitas das situações que os membros do clã irão vivenciar. O mesmo acontece com Meu Amigo Encosto. Um rapaz desajustado descobre que os males de sua vida são causados por um espírito zombeteiro. Dá pra esperar muitas situações inconvenientes, em que o jovem, tentando se esquivar da influência do encosto em questão, acaba passando por louco ou coisa parecida. No entanto, mesmo sabendo que o tema é "batido", a série que estreou no último dia 24 não deve passar batida pelo público do canal.

Essas comédias de costumes, como a produção inédita e o Sai de Baixo (da story-line citada acima) atraem não pelo ineditismo de seus temas, mas pela forma como eles serão contados. E Meu Amigo Encosto conta suas histórias muito bem! O roteiro de Fausto Noro, Thiago Luciano e Tony Góes traz boas sacadas, principalmente em diálogos mais curtos, como o de Ivan (George Sauma) e Rosimary (Amanda Ritcher), em um bar, no final do segundo episódio. Influenciado por Janjão (Danilo de Moura), o dono da Rita Fantasias diz, em alto e bom som, que não vai “comer” sua funcionária; ela, decepcionada, exclama “não” com veemência! Contando não tem a mesma graça; mas no ar, me fez chamar a atenção para o que Meu Amigo Encosto oferece de melhor: o trio presente na cena que descrevi (Amanda Ritcher, Danilo de Moura e George Sauma).

O grande destaque, sem sombra de dúvida, é a dupla protagonista Janjão e Ivan. Tanto George Sauma, quanto Danilo de Moura, estão muito à vontade em seus personagens. O Ivan de George, entre o trágico rapaz falido e o abilolado jovem perseguido por um fantasma, diverte apenas com suas expressões. Já o folgado Janjão entrete mais por conta das formas como despeja suas falas. O tom malandro que impõe aos diálogos confere ainda mais graça à sua caracterização, com camisas estilizadas e a porção final da barriga sempre saltando pra fora da calça. Rosimary vem agregar ao encosto e ao encostado. Seu ar de sofredora aumenta conforme a fantasia que usa para promover a loja em que trabalha. Quando se despe de qualquer alegoria, no entanto, Rosimary irradia felicidade (principalmente ao lado de Ivan). A mudança é visível nas expressões e no gestual da atriz, que realça, com primor, as intenções do texto.

O mesmo não se pode dizer de Cadu Fávero (Dr. Clint) e Fani Pacheco (Neiva). O primeiro soa exagerado no destempero do “encostologista” que usa métodos modernos (e eis aqui uma grande, e honrosa, novidade em roteiros do gênero, como o bode virtual em um tablet). Já Fani Pacheco ainda carrega consigo o estigma de ex-BBB, presente também na personagem, e, talvez por isto, não parece segura em suas cenas. Ainda lhe falta familiaridade com a dramaturgia.

No mais, Meu Amigo Encosto é uma ótima opção. Talvez o público do Viva, afeito ao humor político de Viva o Gordo ou ao “inteligente” de Os Normais, não tenha ainda se atentado para o puro e simples entretenimento proposto pela série. Vale a pena conferir!


Para encerrar, uma dúvida: por que sobrepor sinais sonoros às falas que contém palavrões? A TV fechada dispõe de uma liberdade que a aberta não desfruta há tempos (primeiro, com a ditadura; hoje, com a classificação indicativa atrelada a horários). As falas de Janjão não são tão ou mais ofensivas do que muitos filmes vistos no Telecine ou vídeos na internet, por exemplo.

As tramas exibidas às 14h30 no Viva (antes, às 16h30) foram, em sua maioria, levadas ao ar no horário das oito. E as que não ocuparam esse horário (Barriga de Aluguel e A Viagem) poderiam muito bem ter figurado na faixa, devido à importância e repercussão de seus temas. Acredito que as tramas mais adultas são as preferidas do público vespertino. Não só no Viva, mas também no Vale a Pena Ver de Novo, onde as novelas das oito, por terem maior repercussão, talvez, sempre atingiram índices melhores.

Para dar continuidade a esta faixa de novelas, com o mesmo sucesso que A Viagem vem alcançando, proponho aqui alguns títulos que, acredito, vão de encontro ao perfil do telespectador do horário. Fica a sugestão para que vocês comentem, à vontade, sobre a trama que escolhi e as que vocês gostariam de ver às 14h30.


Não dá mais pra segurar... Explode Coração!
Novela de Glória Perez seria ótima substituta para A Viagem

Glória Perez nunca foi unanimidade entre a comunidade noveleira. As “licenças poéticas” de seu trabalho, especialmente as de Salve Jorge, a colocaram em descrédito. Ao que parece, com Dupla Identidade (ótima até o momento), Glória irá liquidar o estigma ruim que sua última novela deixou. Não será a primeira vez que a novelista irá superar adversidades enfrentadas em seus trabalhos. Com Barriga de Aluguel, fora acusada de fantasiosa, ao abordar a genética a favor da maternidade. O mesmo com o transplante de coração visto em De Corpo e Alma. E também com a internet, na novela a qual esse post se dedica, Explode Coração. A obra tinha sabor de novidade até mesmo em sua produção: foi a primeira inteiramente gravada no Projac, central de estúdios da TV Globo.

Em 1995, a hoje indispensável rede social ainda engatinhava no Brasil. Colocar um tema tão alheio ao grande público no principal horário de novelas da TV Globo foi mais um dos muitos desafios da carreira de Glória Perez, que se antecipava aos tempos atuais, em que a internet é ferramenta fundamental na engrenagem do mundo moderno. Para tornar a novidade menos indigesta ao telespectador, a autora criou uma grande e tradicional história de amor, que unia a cigana Dara (Tereza Seiblitz, belíssima) ao empresário Júlio Falcão (Edson Celulari, também no auge de sua beleza).

Dara tinha orgulho de suas origens, mas se recusava a obedecer às leis de seu povo, que a impediam de estudar, trabalhar e casar com um homem que não fosse escolhido por seus pais. Júlio era um empresário obcecado por dinheiro e poder, cujas relações interpessoais iam de encontro apenas à sua conveniência. Os perfis e ideais eram tão opostos quanto os lugares em que se encontravam: ela, em um apartamento no Rio de Janeiro, apresentando os ciganos modernos, que abandonavam as tendas em nome do conforto; ele, em Tóquio, a trabalho, acompanhado da esposa, Vera (Maria Luísa Mendonça, muito bem), da prima desta, Eugênia (Françoise Forton, também arrasando), e de sua amante Laura (Karina Perez), com quem fora flagrado, aos beijos, por Vera. Revoltada, a traída decidia retornar ao Brasil, encontrando-se com Ivan (Herson Capri), que viria a ser seu amante, no aeroporto. Sozinho, Júlio acessava a rede mundial de computadores, cruzando seu destino com o de Dara, que, enquanto planejava dar continuidade ao seu curso pré-vestibular e ensaiava um romance com Serginho (Rodrigo Santoro), fora surpreendida pelo anúncio do retorno de seu noivo ao Brasil. Inconformada, Dara desabafa, via internet, com o primeiro que aparece. E por primeiro que aparece, entenda-se, Júlio. Este adquire tanta confiança em Dara que se abre, revelando sua obsessão por dinheiro e poder. E a paixão vai surgindo através do computador, espécie de modernização de 2-5499 Ocupado, a primeira novela diária do Brasil (exibida pela TV Excelsior), na qual o casal protagonista se conhecia, apenas, por telefone.

Dara, tão logo nasceu, fora prometida a Igor (Ricardo Macchi). Enquanto ela almeja fugir do compromisso, ele, durante todo o tempo que passou longe da noiva, alimentou o desejo de levar o compromisso adiante. Com a ajuda de Serginho, a cigana consegue fugir de casa, causando um racha entre o seu povo: Pepe (Stenio Garcia) e Luzia (Ester Góes) exigem receberem de volta o dinheiro pago pelo dote de Dara, para desespero do pai dela, Jairo (Paulo José), que corta relações com a filha. Do núcleo cigano, saíram alguns dos melhores desempenhos da novela. Paulo José e Eliane Giardini estavam ótimos como Jairo e Lola, o casal que quebrava todos os pratos da casa quando discutia; Ester Góes, Laura Cardoso (Soraya, a matriarca dos ciganos) e Felipe Folgosi (Vladimir) também se sobressaíram; e Leandra Leal, ainda uma jovenzinha, já demonstrava seu enorme talento como Ianca, que nutria um amor platônico por Igor e se revoltava com Dara (a caçula da família era obrigada a esperar a irmã mais velha se casar para poder assumir qualquer compromisso matrimonial). A exceção para tanto talento fora Ricardo Macchi, que, inexpressivo, não deu conta da responsabilidade que Igor exigia. O personagem só cresceu na reta final, quando o ator passou a ser dirigido por Gracindo Jr., e o tema romântico que o acompanhava (Estoy Enamorado, de Donato & Estéfano) explodiu em todo o país.




Por conta de sua fuga, e por não querer honrar o noivado, Dara fora expulsa de casa pelo pai. Passou a morar com Odaísa (Isadora Ribeiro), a empregada da família, que já a auxiliava a burlar a vigilância da mãe para frequentar o curso pré-vestibular. Foi em contato com Odaísa que Dara conheceu Edu (Cássio Gabus Mendes), um rato de internet que a colocou em contato, novamente, com Júlio Falcão. Edu vivia congestionando a linha telefônica de sua casa, realidade vivenciada por muitos brasileiros na época da internet discada. Seus pais, Lucineide (Regina Dourado) e Salgadinho (Rogério Cardoso, em uma rara incursão pelas novelas), viviam preocupados com a conta do telefone no fim do mês. O casal protagonizou os melhores momentos do núcleo cômico da trama e o bordão “Stop, Salgadinho!” virou mania nacional. Os demais personagens do núcleo suburbano da trama não despertavam o mesmo interesse: Adilson Gaivota (Eri Johnson), Soninha (Paula Lavigne) e Bebeto (Guilherme Karan) eram apaixonados pela dança (tema recorrente nas obras da novelista); os dois últimos, em especial, endeusavam os anos 50. Já o nerd Edu usava o anonimato da internet para galantear a jornalista Yone (Deborah Evelyn).

Com suas vidas em desajuste, Júlio e Dara decidem que chegou a hora de se conhecerem pessoalmente e agendam diversos encontros, via internet. Mas a hora de se verem demora a chegar. E quando chega, Júlio é surpreendido por uma Dara arredia, que sempre se esquiva de suas demonstrações mais efusivas de carinho. Se antes possuíam uma barreira física, a do computador, agora existe a barreira imposta pelas tradições do povo cigano, que Dara segue fielmente: não beijar o homem que ama até o casamento. A paixão, entretanto, só faz aumentar e Dara, sem ter como esconder o que sente, acaba se entregando ao empresário, com quem perde a virgindade.

O relacionamento é um empecilho para a carreira política de Júlio. Seu sogro, Avellar (Odilon Wagner), e seu secretário, Tadeu (Daniel Dantas), usam de todos os artifícios para afastá-lo de Dara. E o influenciam a se casar com Eugênia, que esconde de seu grande amor que a cigana espera um filho dele. É em Igor que a moça irá encontrar apoio. Numa das cenas mais marcantes da novela, Igor chega ao seu casamento com Ianca montando em um cavalo, com Dara a tiracolo. Ele exige trocar a noiva antes da cerimônia, o que a comunidade cigana acata já que Dara era a noiva prometida. Após a cerimônia, para salvar a pele da mulher, que não era mais virgem, Igor corta seu braço, manchando a saia dela de sangue. Cena parecida foi vista em O Clone, também de Glória Perez, na qual Said (Dalton Vigh) fazia o mesmo para proteger Jade (Giovanna Antonelli). Feliz com a atitude do agora marido, Dara dança animada em sua festa de casamento, tendo Júlio por testemunha. A carreira do empresário e candidato a senador entra em declínio quando Vera revela muitas de suas falcatruas. Abandonado por Avellar e Tadeu, ele só encontra respaldo em Eugênia, que, mesmo apaixonada, o aconselha a ir atrás de Dara. E Júlio segue o conselho, justamente no momento em que a cigana, auxiliada por Igor, dá a luz. O destino unia, em definitivo, o casal que a modernidade formou e a tradição desuniu.

Mas nem só da tecnologia e das tradições viveu Explode Coração. O amor entre Serginho e Betty (Renée de Vielmond) abrilhantou ainda mais a estória. Além da diferença de idade existente entre os dois, Serginho era enteado de César (Reginaldo Faria), ex-marido de Betty, e filho de Alícia (Nívea Maria), protótipo de vilã, assim como Mila (Zezé Polessa), vizinha dos ciganos que se horrorizava com o barulho das festas e da quebradeira de pratos. Explode Coração trouxe ainda o homossexual Sarita Vitti (Floriano Peixoto), que atraiu a atenção da audiência, assim como a campanha em prol das crianças desaparecidas, promovida a partir do momento em que Odaísa tem seu filho, Gugu (Luís Cláudio Jr.), sequestrado e quase traficado por Geraldo (Gracindo Jr.), que namorava a empregada no intuito de prejudicar suas investigações acerca do sumiço do menino.

Apesar do sucesso, inexplicavelmente, Explode Coração não deu o ar de sua graça no Vale a Pena Ver de Novo. Sua reprise chegou a ser cogitada em 2000; no entanto, acabou preterida por Tropicaliente (que, em novembro, ocupará o horário de História de Amor). Na época, a imprensa chegou a ventilar a hipótese da Globo inserir cenas inéditas, com fotos de crianças desaparecidas, dando continuidade ao trabalhos social promovido durante a exibição original. Seria interessante se, caso Explode Coração ocupe as tardes do Viva, o canal promova ação parecida, servindo-se de seu perfil nas redes sociais, por exemplo.


A próxima reprise da faixa das 14h30 deve começar em 26 de janeiro de 2015. Parece longe, mas se considerarmos que restam apenas três meses para acabar o ano... Em breve, teremos a substituta de A Viagem. Se Explode Coração for a escolhida, eu aceitarei de bom grado. Que venha com muito sucesso!


Reveja o primeiro encontro de Dara (Tereza Seiblitz) e Júlio Falcão (Edson Celulari), através da internet, em cena exibida no primeiro capítulo de Explode Coração, publicada no YouTube pelo canal Reviva!